O Tempo das Coisas – Panorama, 84-2012

5 jan

Hoje, depois de anos, senti novamente o tempo.

Sim, porque o tempo se sente, mas não com algum sentido ou voluntariamente. Ele apenas surge, como um lapso, substituindo o que a gente sente por outras coisas sentidas, que ficam jogadas no canto da gente feito antigos papéis importantes em esquecidos fundos de armários.

E o tempo me veio de surpresa enquanto nesse início de madrugada, comum e banal feito um reflexo no espelho, caminhava pelo meu prédio e vi nele os fragmentos de tudo o que nele já não há, e na grande novidade de todo resto. Esse mesmo prédio, edifício inanimado de concreto, envelheceu-se, maturou-se e evoluiu assim como todos que por ele passaram, e por isso muito em breve, quando eu não esteja mais abrigado por ele, sinta dele falta como se fosse uma pessoa com quem tenha convivido.

Foi aí quando o tempo me mostrou a ausência de boa parte dos banquinhos de concreto, tantas vezes usados por mim em fantasiosas brincadeiras, como golzinho, tabuleiro de giz, salvação no pique-alto, sendo um dos últimos deles onde eu me sentei para iniciar meu último livro escrito. A ladeira, na qual eu descia de rolimã até seu princípio, onde certo dia uma senhora, daquelas mais amáveis, sem querer pisou-me um brinquedo – e mais uma vez o tempo me mostra pequenos detalhes despercepidos, como o fato de que já não existem nem o brinquedo, nem a senhora. Olhei as janelas, de onde há muitos anos sorriam os colegas de infância, em um tempo quando nenhum de nós talvez pensasse concretamente no que seríamos hoje, e pensei se algum deles deve sentir falta dessas janelas hoje em dia.

O local no canteiro do passarinho enterrado, a selva imaginária dos Comandos em Ação, o cercado de plantas que tantos anos sofreu por servir de gol a toda infância que aqui viveu, tudo foi me vindo aos poucos, como um álbum de fotos que é aberto com cuidado, a atenção nos detalhes. E foram muitos os detalhes que vi, a ponto de eu chegar à conclusão de que faltaria página para caber. Mas talvez, os detalhes já esquecidos, e agora revisitados, fossem um subterfúgio para que o tempo  me fizesse lembrar que, ao levar as mãos ao rosto, repleto de barba, perceba que nesta barba está a deflagrante mostra do tempo que ignoro todos os dias, enquanto olho no espelho e acho normal encontrar essa face amadurecida, ao passo de que por dentro talvez eu esteja tantos anos atrasado, ainda me acostumando a não ser o menino e o adolescente que fui.

Serão 28 anos nesse ano de 2012, e talvez o último aniversário meu que este prédio veja. Em breve, serei eu em novas janelas, e sei que o passar dos anos me levará novamente a sentir o tempo, olhando no espelho meu rosto, e percebendo, finalmente e em mim, a ausência dos meus banquinhos de concreto, dos meus cenários mais fantasiosos – e a partir daí, dar falta das pessoas e coisas que não existem mais, reconhecer as pessoas e coisas novas que não cansam de surgir.

Ao perceber isso, quis escrever, talvez uma nova história para o Arlindo Orlando, esse companheiro igualmente nascido sob o abrigo desse prédio, mas não. Talvez o primeiro texto meu desse ano tenha de ser de fato meu, esse personagem incontrolável com quem obrigatoriamente convivo e sobre o qual não me agrada tanto escrever. É por isso que termino esse texto com um sentido diferente, não de saudade, e sim da certeza de que ambas, ausência e presença, dentro da mudança, são coisas que a gente leva por dentro, guardadas nas gavetas do tempo, que invariavelmente nos volta a mostrar nos momentos mais oportunos.

E assim, percebo que na verdade não escrevi sobre mim, agora, e sim sobre a essência de qualquer um que viva e tenha lembranças: da permanência na mudança.

Mas mesmo assim sentirei saudade.

Sobre a ideia deste blog

2 maio

Antes de qualquer coisa, sim: este é um blog narcisista. Isso no sentido de que apenas trata do que venho produzindo artisticamente nos últimos tempos, e de referências relacionadas a essas obras – que não são tantas, mas já não me dão a opção de divulgá-las separadamente. Sendo assim, esse blog pessoal é a centralização da minha produção.

Nesse blog, é possível encontrar referências para minhas produções, e conhecer um pouco do que venho escrevendo. Por enquanto, há referência a meus dois livretos de poesia (Diálogos de Minhas Retinas e Serão – ambos podem ser baixados gratuitamente), ao meu romance já publicado de forma independente (Inventário Amoroso de Antonio Pereira), ao que será publicado em breve (Órion) e aos meus dois blogs em atividade (O diário de Arlindo Orlando e Vida Olhando Dentro – este último em parceria com Rodrigo Siqueira).

Para saber um pouco mais sobre as obras, basta percorrer as páginas correspondentes, listadas no topo do blog. As postagens relacionadas a cada uma delas estará indicada ao lado direito, na parte Categorias. Qualquer notícia ou informação atualizada estará presente ali.

Além disso, espero trazer informações sobre as demais obras, que não são minhas, mas estão diretamente relacionadas a elas. No mais, um abraço para quem está aí do outro lado.